José Eduardo Carvalho

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dois

Em JoséEduardoCarvalho, 14/06/2009 às 8:51 AM
 Cafe Terrace On The Place, de Vincent van Gogh.

Cafe Terrace On The Place, de Vincent Van Gogh.

Tentei encontrar maneiras de enganar o sono. Cada vez mais acreditava que uma vida sem emoções, estruturada na razão, não teria sentido algum pra mim.  Não queria dinheiro, luxo, fama, trabalho, amores, sexo, queria a verdade, nada mais. De repente, me deparei novamente na Praça XV, mas dessa vez já sabia a janela que correspondia ao quarto do meu analista. E lá estava ele reclinado em várias almofadas arredondadas, todas cobertas de renda, com olhos transbordando vida, delicadeza, malícia. Um gato preto, de traços peculiares, alinhara-se entre suas pernas, como se fosse uma posição indiscutível de conforto. No entanto, nem o gato nem o seu dono chamavam mais a minha atenção naquele quarto. Totalmente enfeitiçado por inúmeras mandalas penduradas na janela, que me remetiam a fragmentos de sonhos, nada mais desviava o meu olhar. Finalmente, o analista disse:

– Vejo que as mandalas te interessam.

– Sim, respondi.

Depois de tanto olhar, tudo decaiu e acabou.

– Que pensamentos elas provocam em você? O que surge em sua mente?

Perguntou o analista.

– Não sei bem, gosto das cores, da textura. Gosto da obra. Acho alegre e serena, disse.

Fiquei mexendo a mandala para lá e para cá, contra a luz suave, avermelhada. Mas não tão ágil quanto o meu analista, que pegou uma das mandalas para me presentear. Atormentado pelas contradições da razão, questionei o motivo de tal ato.

– Meu caro, não há motivo para dar de presente um objeto que não vejo valor, disse o analista.

Talvez fosse o momento de rever o valor que eu atribuía às coisas de minha vida. Não precisava ser tão solitário assim. Muitos menos ser fiel a minha rotina noturna. Entendia como uma saída – ou melhor dizendo, fuga ­ – para todos os meus desapontamentos que julgava demasiadamente cruéis. Por isso, no inverno daquele ano, resolvi dar notícias como gesto de generosidade aos meus parentes. Dificilmente comia mais de uma vez por dia, em geral, depois de vagar pela cidade. Costumava freqüentar o café que era o point da cidade, servia uma bebida amarga e escura, com gosto de terra, com mini-sonhos de doce-de-leite deliciosamente macios e recheados. Descobrira o lugar assim que cheguei à cidade, há um ano, e me tornará amigo do dono.  Todas as manhãs, quando devorava a suposta bebida escura com sonho, ele brincava, dizendo:

– Ei, garoto com cara de homem, assim você não vai manter o peso.

Meses antes sentar-me ali, como de costume, conheci um senhor muito interessante. Na verdade, uma entidade ancestral espiritual que muito me disse sobre os mistérios da vida e da natureza. Baixinho, magro, com poucos cabelos grisalhos sobre o rosto e traços de uma vida marcada pela luta, ouvi as histórias mais extraordinárias de minha vida. Quando ele começou a falar, desconfiei que estava sonhando com vidas passadas.

um

Em JoséEduardoCarvalho, 14/06/2009 às 4:55 AM
O Grito, do pintor expressionista norueguês, Edvard Munch.

O Grito, do pintor expressionista norueguês, Edvard Munch.

As paredes me sufocavam, tinha sonhos sombrios naquele lugar. O quarto alugado na Rua Piracuama era minúsculo, quente e barulhento, tinha um estabelecimento comercial, no piso inferior, e um barulho constante de liquidificador ligado. Os funcionários da padaria chegavam às quatro e meia da manhã e tomavam café de luz acesa. Quando o sol despontava no céu, eles já estavam atendendo normalmente os clientes, com a maioria dos alimentos fresquinhos, pronto para serem devorados por almas famintas. Não me lembro um dia que não tenha presenciado isso acontecer, fora aqueles que não estava no quarto. Mesmo assim, nesse horário, conseguia imaginar a situação. Numa noite de agosto gelada eu estava longe de casa, caminhando pela noite profunda, muito escura, num rumo que não sabia onde iria dar. Percebi que a comunicação flui melhor à noite, como a febre que vez ou outra aparece quando escurece. A algazarra dos turistas que sempre circulavam em grandes grupos pelo bairro e o uísque que pelo horário eu deduzia que já estava em altas dosagens na cabeça dos jovens da Rua Augusta, garantiam uma bagunça infinita até o sol aparecer. Com um sorriso de canto de boca, daqueles esboçados forçadamente, sem nenhuma naturalidade, cumprimentei a pessoa ao meu lado. Era o bastante, pensei. Estava tão perdido em meus pensamentos, que só queria um pouco de privacidade, o que obviamente não poderia ter, pois estava em um ponto de ônibus. E sozinho.

- Não é possível, andei tanto a procura de lugar nenhum e ainda me aparece uma pessoa, pensei.

Nem sabia ao certo que ônibus deveria pegar e muito menos para onde ir. Na verdade, não tinha para onde ir. A pessoa ao lado, sentada no banco, parecia querer dizer algo. Talvez um suspeitasse do outro, mas isso não vinha ao caso, não havia tempo para dúvidas. Melhor tudo continuar como estava. O conflito não era físico, era psicológico. Pensamentos iam e vinham, assim como os inúmeros ônibus que passavam diante de mim. Dizia ser ateu, mas diante de tanto sofrimento, meu coração acreditava que um milagre alteraria positivamente a ordem natural da minha vida vida. Mas nada acontecia. Achava estar fugindo de gente que não conseguia controlar a própria loucura, mas lá no fundo meu ego gritava que eu estava fugindo de mim mesmo. Uma outra linguagem, uma outra ideologia espiritual secreta, crescia dentro de mim, tomando conta dos meus sonhos noturnos. De repente, quando me dei conta, estava parado na Av. Paulo VI, observando as janelas do Rotary Palace, e imaginando qual delas correspondia ao apartamento do meu analista. Entrei em um quarto qualquer, fiquei atônito. O homem aparentava ter uns 45 anos, cabelo preto, um pouco azulado, olhos puxados, pele morena, lábios um pouco grossos… Era ele. O analista. Uma espécie de índio peruano. Talvez daí a sua sabedoria. Seu quarto espelhava o luxo escondido cheio de obras mundanas. Parede de veludo vermelho e uma luz suave, aconchegante, proveniente de luminárias revestidas de sedas rosadas. Em meu nariz penetrava um perfume cítrico, combinação de laranja e limão que pairava no ar formando uma transparente névoa esbranquiçada. Timidez, ansiedade, nervosismo, não sei o que ocorreu, mas não consegui falar coisa com coisa e fui embora correndo daquele lugar. O frio era insuportável, mas eu não sentia nada por causa do fogo que me aquecia internamente. Na volta para casa, me perdi, andei em círculos a noite inteira a procura da lucidez escondida em minha mente. O tempo passava rápido, muito rápido. Já eram quatro horas da manhã. Resolvi sair andando, rumo ao desconhecido – como de costume – mas em largos passos, com pressa. O olho do sol começava a me seguir na cama. Já conseguia sentir o cheiro de café fresco e pão queimado que vinha da padaria.

a vida em espiral

Em JoséEduardoCarvalho, 14/06/2009 às 4:46 AM

A vida em espiral é um blog literário, de ficção e não-ficção, de idéias completas e/ou inacabadas, de contos e en(contros) do autor com a sua imaginação. Ao mesmo tempo, uma observação cotidiana do universo ao seu redor, mistura-se com viagens da inteligência literária imaginativa. Sem prentensões ou ambições literárias, o blog é apenas uma aventura no universo das letras para exercitar a escrita.

Cachoeira do Buração, em Ibicoara, na Chapada Diamantina, Bahia. Pedras formam um camino no formato espiral.

Cachoeira do Buração, em Ibicoara, na Chapada Diamantina, Bahia. Pedras formam um camino no formato espiral.

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