
Cafe Terrace On The Place, de Vincent Van Gogh.
Tentei encontrar maneiras de enganar o sono. Cada vez mais acreditava que uma vida sem emoções, estruturada na razão, não teria sentido algum pra mim. Não queria dinheiro, luxo, fama, trabalho, amores, sexo, queria a verdade, nada mais. De repente, me deparei novamente na Praça XV, mas dessa vez já sabia a janela que correspondia ao quarto do meu analista. E lá estava ele reclinado em várias almofadas arredondadas, todas cobertas de renda, com olhos transbordando vida, delicadeza, malícia. Um gato preto, de traços peculiares, alinhara-se entre suas pernas, como se fosse uma posição indiscutível de conforto. No entanto, nem o gato nem o seu dono chamavam mais a minha atenção naquele quarto. Totalmente enfeitiçado por inúmeras mandalas penduradas na janela, que me remetiam a fragmentos de sonhos, nada mais desviava o meu olhar. Finalmente, o analista disse:
– Vejo que as mandalas te interessam.
– Sim, respondi.
Depois de tanto olhar, tudo decaiu e acabou.
– Que pensamentos elas provocam em você? O que surge em sua mente?
Perguntou o analista.
– Não sei bem, gosto das cores, da textura. Gosto da obra. Acho alegre e serena, disse.
Fiquei mexendo a mandala para lá e para cá, contra a luz suave, avermelhada. Mas não tão ágil quanto o meu analista, que pegou uma das mandalas para me presentear. Atormentado pelas contradições da razão, questionei o motivo de tal ato.
– Meu caro, não há motivo para dar de presente um objeto que não vejo valor, disse o analista.
Talvez fosse o momento de rever o valor que eu atribuía às coisas de minha vida. Não precisava ser tão solitário assim. Muitos menos ser fiel a minha rotina noturna. Entendia como uma saída – ou melhor dizendo, fuga – para todos os meus desapontamentos que julgava demasiadamente cruéis. Por isso, no inverno daquele ano, resolvi dar notícias como gesto de generosidade aos meus parentes. Dificilmente comia mais de uma vez por dia, em geral, depois de vagar pela cidade. Costumava freqüentar o café que era o point da cidade, servia uma bebida amarga e escura, com gosto de terra, com mini-sonhos de doce-de-leite deliciosamente macios e recheados. Descobrira o lugar assim que cheguei à cidade, há um ano, e me tornará amigo do dono. Todas as manhãs, quando devorava a suposta bebida escura com sonho, ele brincava, dizendo:
– Ei, garoto com cara de homem, assim você não vai manter o peso.
Meses antes sentar-me ali, como de costume, conheci um senhor muito interessante. Na verdade, uma entidade ancestral espiritual que muito me disse sobre os mistérios da vida e da natureza. Baixinho, magro, com poucos cabelos grisalhos sobre o rosto e traços de uma vida marcada pela luta, ouvi as histórias mais extraordinárias de minha vida. Quando ele começou a falar, desconfiei que estava sonhando com vidas passadas.

