José Eduardo Carvalho

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In 1 on 06/09/2009 at 7:42 PM
Petite Poupée 7 - La Gamine

La Gamine, da artista brasileira Petite Poupée 7 (RJ), que explora temáticas amorosas em seus desenhos.

Formas de Amar

Já com outro pensar

Agora

Talvez mais exemplar

Por hora

Me revisto do teu olhar

Sem esquecer

Aquela velha forma de amar

-

E de repente

Nem podia imaginar

O quanto aquilo me fazia sonhar

Quem não compreende

Nunca saberá

O que significa

Voar

-

De última agora

Tento lhe explicar

A importância de canalizar

Seja lá como for

A sua nova forma de amar

quatro

In JoséEduardoCarvalho on 16/06/2009 at 11:28 PM
Por Vik Muniz, artista plástico brasileiro, que, entre outras coisas, já produziu imagens com sucatas.

Por Vik Muniz, artista plástico brasileiro, que, entre outras coisas, já produziu imagens com sucatas.

Talvez estivesse confuso. A arte de sonhar tornou-se a capacidade de deslocar o corpo – na realidade, o espírito – para fazer passeios em qualquer lugar que se deseja ir, disse o velho. E talvez você faça isso sem sentir, instintivamente, completou ele.  De fato, não podia negar que minhas experiências me deixavam em estados inigualáveis de bem-estar, exceto quando me via horas e horas a fio, sonhando, em estados naturais de vigília. Eu tinha a chave para muitos mistérios, revelou-me o velho.

- Enquanto dorme, você age como imortal, sendo assim, você acha que tem todo o tempo do planeta dentro de si, pontuou o analista.

Eu me sentia péssimo naquela conversa. Tentava desprezar a estupidez humana que acreditava fazer parte de mim. O papo beirava o delírio, era tudo muito surreal, por assim dizer.  Verdadeiro sufoco iniciar diálogos, ou melhor, só fazia escutá-lo. Entretanto, tudo que ele me dizia, achava, no mínimo, intrigante. Seu rosto, com traços cansados e um pouco sujo, revelava um brilho infantil, mas tinha olhos cor de mel , com pegada oriental, e usava unhas longas e afiadas, como se tocasse violão ou fosse um velho monge chinês.  Tarde da noite, acordei com a sensação de que não estava sozinho no quarto; com certeza, havia alguém. Consegui ver a silhueta do rosto através da cortina transparente que separava o quarto do banheiro, graças à intensidade da luz da lua. De nada adiantaria eu fingir que não estava vendo, acendi a luz e uma linda menina, de cabelo loiro encaracolado, me observava, com a cabeça em cima dos braços debruçados na janela.

três

In JoséEduardoCarvalho on 15/06/2009 at 1:47 AM
Sala Vermelha, do desenhista e pintor francês, Henri Matisse.

Sala Vermelha, do desenhista e pintor francês, Henri Matisse.

Sentia necessidade de ouvir cuidadosamente cada palavra que ele me dizia e para não correr o risco de perder qualquer detalhe, convidava-o para me acompanhar a outro local. O café que tinha na rua ao lado estava sempre deserto, sem graça, portanto era o café mais vazio da cidade. Travava uma batalha no espaço-tempo para desvendar tudo que há dias me atordoava o juízo. A rua que abrigava o café tinha uma perspectiva longa, solitária; era praticamente habitada por um jovem rapaz negro, franzino, de seus vinte e poucos anos, que ficava agachado embaixo de uma árvore, com seu ar de tristeza, soltando bolhas de sabão e observando elas estourando no alto. Pode parecer irônico, mas apesar do café estar sempre vazio, era melhor do que o outro, o da misteriosa bebida escura. Pedi dois, assim que me sentei, mas não posso deixar de falar da senhora Afonsa. Passava o dia inteiro atrás do balcão, se abanando com uma tampa velha de uma caixa de sapato, e movia-se apenas para espantar pernilongos.

- Obrigado, senhora. Disse.

Meu interesse por dona Afonsa, confesso, era clínico. Ela insistia em manter um café numa casa velha, toda preta por fora, e com uma árvore quase deitada na frente sufocando a ventilação. Todas as casas tinham uma placa escrito “aluga-se”, sem contar um posto caindo aos pedaços, com gasolina falsificada.